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Árvores da Mata Atlântica na berlinda da extinção

Pesquisa revela que mais de 80% das espécies de árvore exclusivas do bioma, historicamente o mais desmatado do país, estão sob risco de desaparecer

Duda Menegassi·
19 de janeiro de 2024

Cinco séculos de exploração, destruição e ocupação da Mata Atlântica deixaram cicatrizes profundas no bioma que originalmente cobria a costa brasileira. Com menos de um quinto da sua extensão original, a Mata Atlântica e toda sua biodiversidade foram empurrados para a berlinda. Um novo levantamento revela que 82% das espécies de árvores exclusivas do bioma estão sob algum risco de ameaça de desaparecer para sempre.

O estudo mapeia as quase 5 mil espécies de árvores que ocorrem no bioma e usa os critérios da União Internacional de Proteção da Natureza (IUCN) para criar uma “Lista Vermelha” das árvores ameaçadas da Mata Atlântica. O termômetro do risco da extinção começa em Pouco Preocupante e Quase Ameaçada, e é considerada ameaçada a partir de Vulnerável, até Em Perigo e Criticamente Em Perigo – o estágio mais crítico antes da espécie ser considerada extinta.

De acordo com o levantamento, das 4.950 espécies de árvores que ocorrem no bioma, dois terços foram classificadas em algum nível de ameaça. Entre as espécies endêmicas, ou seja, que são encontradas apenas na Mata Atlântica, o risco da extinção é proporcionalmente maior, com 2.025 espécies ameaçadas – o equivalente a 82% do total.

Entre as endêmicas ameaçadas, mais da metade (52%) estão Em Perigo de extinção. Outras 19% são consideradas Vulneráveis, e 11% estão Criticamente Em Perigo. No outro lado da balança, 17% das espécies estão em situação Pouco Preocupante e 1% Quase Ameaçada.

Outras 13 espécies endêmicas foram consideradas possivelmente extintas. Em contrapartida, cinco espécies que eram consideradas extintas na natureza foram redescobertas pelo estudo.

“A maioria das espécies de árvores da Mata Atlântica foi classificada em alguma das categorias de ameaça da IUCN. Isso era esperado, pois a Mata Atlântica perdeu a maioria das suas florestas e, com elas, as suas árvores. Mesmo assim, ficamos assustados quando vimos que 82% das mais de 2000 espécies exclusivas desse hotspot global de biodiversidade estão ameaçadas”, destaca Renato Lima, professor da Universidade de São Paulo (USP) que liderou o estudo, publicado na Science na quinta-feira da semana passada (11) em conjunto com outros dez pesquisadores.

O emblemático pau-brasil (Paubrasilia echinata), por exemplo, endêmico da Mata Atlântica, foi classificado como Criticamente Em Perigo, com um declínio populacional de 84% nas últimas três gerações. 

Outras espécies populares como a araucária (Araucaria angustifolia), o palmito-juçara (Euterpe edulis) e a erva-mate (Ilex paraguariensis) tiveram uma queda de pelo menos 50% nas suas populações silvestres e são classificadas como Em Perigo. 

Ocotea porosa. Foto: Anderson Kassner-Filho

Os pesquisadores alertam ainda para as ameaças futuras – não contabilizadas pelo estudo – como os impactos da crise climática. 

Para realizar o levantamento, os pesquisadores automatizaram as avaliações de conservação para quase 5 mil espécies, feito com base em mais de 3 milhões de registros de herbários e de inventários florestais de toda a Mata Atlântica reunidos numa única base de dados, o que permitiu entender como o número de árvores foi reduzido ao longo do tempo. A análise incluiu ainda informações sobre a história de vida das espécies, usos comerciais e longas séries temporais de perda de habitat. 

Um dos grandes destaques do estudo é que esse fluxo de trabalho desenvolvido pelos pesquisadores pode ser replicado em outros levantamentos e em larga escala.

A abordagem usada no estudo será utilizada de forma sistematizada a partir de 2024 pelo Centro Nacional de Conservação da Flora (CNCFlora) – órgão do Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro responsável pela elaboração da a Lista Vermelha Oficial da Flora do Brasil – para avaliar as cerca de 12.000 espécies de plantas que ocorrem apenas no Brasil e que ainda não tiveram o seu grau de ameaça avaliado oficialmente.

A maioria das avaliações de risco de extinção atualmente disponíveis na IUCN se baseia apenas na distribuição geográfica das espécies, mas o declínio no número de árvores adultas causado pelo desmatamento é a principal causa de ameaça das espécies, principalmente em áreas altamente alteradas como a Mata Atlântica. De acordo com os pesquisadores, utilizar vários critérios da IUCN na avaliação reduz a chance de subestimar o nível de ameaça das espécies.

“Se tivéssemos usado menos critérios da IUCN nas avaliações de risco de extinção das espécies, o que geralmente tem sido feito até então, nós teríamos detectado seis vezes menos espécies ameaçadas. Em especial, o uso de critérios que incorporam os impactos do desmatamento aumenta drasticamente o nosso entendimento sobre o grau de ameaça das espécies da Mata Atlântica, que é bem maior do que pensávamos anteriormente”, completa o professor da USP.

Através da avaliação dos pesquisadores, cerca de 3% das espécies que eram classificadas nas categorias de Pouco Preocupante ou Quase Ameaçada devido as suas extensas áreas de ocorrência para Criticamente Em Perigo, por terem tido reduções populacionais superiores a 80%. 

O trabalho dos pesquisadores também olhou pros principais maciços de floresta tropical do mundo e projetou qual seria o impacto da perda de florestas sobre as espécies de árvores em escala global. “As projeções indicam que entre 35-50% das espécies de árvores do planeta podem estar ameaçadas apenas devido ao desmatamento”, alerta Hans ter Steege, do Naturalis Biodiversity Center, da Holanda, um dos autores do artigo.

  • Duda Menegassi

    Jornalista ambiental especializada em unidades de conservação, montanhismo e divulgação científica.

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