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Como podemos defender o Oceano se não o conhecemos?

Somos cercados pelo imenso Oceano, mas quase não o conhecemos e, principalmente, pouco protegemos

9 de outubro de 2023
  • Rede Ressoa

    A Rede Ressoa é um projeto colaborativo de divulgação científica e comunicação sobre o Oceano.

  • Paulo Wanderley de Melo

    Professor de Biologia e engajado com a comunicação científica. Graduado em Ciências Biológicas, tem mestrado em Etnobiologia e Conservação da Natureza.

“Conhecer para conservar, conservar para conhecer” e sobreviver. Aqui refletimos sobre a importância do Oceano para a biodiversidade e manutenção da vida humana; e quais estratégias podemos buscar para melhor conhecê-lo e protegê-lo.

O Oceano recobre cerca de 71% da superfície da Terra e abriga mais de 2 milhões de espécies conhecidas. Porém, menos de 10% da sua superfície está sob alguma política de proteção – vale salientar que cerca de 70% da área oceânica está sob jurisdição internacional, o que deixa as coisas bem mais complexas. No Brasil, a “Amazônia Azul”, composta pela costa do nosso país – Ilhas Oceânicas,  Zona Econômica Exclusiva e Plataforma Continental (conforme definidas pela Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar) – totaliza uma área atual de 3,6 milhões de quilômetros quadrados. Isso é mais de 40% do território terrestre do país e bem próximo ao tamanho da “Amazônia Verde”. Mesmo assim, possui menos de 30% da sua área (985.042 km²) sob algum regime de proteção. Você pode pensar: “não parece tão ruim”. Depende… Até 2018, apenas 1,5% das águas marinhas brasileiras eram protegidas, esse grande “salto” foi devido à criação de duas grandes áreas de proteção em áreas mais afastadas da costa. 

Em 2010, durante a Convenção da Biodiversidade, foram determinadas metas de áreas de proteção até o ano de 2020. Os países participantes entram em acordo para alcançar pelo menos 17% das áreas terrestres e águas interiores e 10% das áreas costeiras e marinhas. Onze anos depois, em 2021, os números chegaram às marcas de 15% da superfície terrestre e 7,6% do oceano. Em 2022, o Marco Global da Diversidade Biológica de Kunming-Montreal foi um acordo inovador alcançado durante a cúpula da Convenção sobre Diversidade Biológica, a COP-15, em Montreal. Ele estabeleceu objetivos sobre a conservação, restauração e uso sustentável da biodiversidade e dos ecossistemas até 2030 (MMA, 2023). O Brasil adotou essas metas, com o objetivo de alcançar a proteção de 30% do oceano global até 2030.

Apesar de parecerem promissores, temos que prestar atenção para o fato de que a menor quantidade de áreas protegidas ainda estará mais atrelada a regiões de maior desmatamento, consumo de recursos naturais e poluição, por exemplo. O termo “áreas protegidas” inclui diferentes categorias de proteção e uso sustentável. No Brasil, a legislação prevê 12 tipos de unidades de conservação, divididas entre proteção integral (como parques e estações ecológicas) e uso sustentável (como reservas extrativistas e áreas de proteção ambiental – leia aqui para conhecer um pouco mais sobre as UCs no Brasil). Essas regras de uso influenciam no modo com a comunidade deve interagir com essas áreas.  

Conhecer para conservar

John Muir. Foto: Biblioteca do Congresso Americano.

A ideia de “Conhecer para conservar” data de meados de 1900, levantada pelo montanhista escocês John Muir, que defendia a importância do contato do público às belezas naturais para frear os avanços do “chamado progresso” nos EUA. Escrevendo diversos artigos sobre a região de Yosemite, na Califórnia, Muir conseguiu atrair atenção tanto da comunidade científica quanto do público geral, encantando a todos que desejavam conhecer a região da maneira “mais pristina possível”. Seus esforços foram responsáveis por alcançar esferas políticas e aumento das pressões públicas, resultando na criação do 2° Parque Nacional dos EUA e do mundo – o Parque Nacional de Yosemite – em 1890.

Momentos de instabilidade política trouxeram a estagnação de pautas ambientais, deixando abordagens de preservação e conservação da natureza quase estagnadas durante o final do século 19 até o fim da Segunda Guerra Mundial. Essas pautas voltaram à discussão com a criação da UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) e da IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza), em 1948. A partir de então, a criação de áreas de proteção ambiental aumentou significativamente ao longo dos anos e ao redor do planeta. Cada vez mais defendidas por especialistas, áreas protegidas são vistas como uma das principais estratégias para conservação dos recursos naturais e manutenção da qualidade da vida humana.

Estratégias para conhecer o Oceano

Mas como podemos mudar algo? Como podemos aumentar as pressões sobre os tomadores de decisão para que as áreas de proteção ambiental sejam criadas em lugares, tamanhos e regimes mais efetivos? A resposta é: conhecendo!

Anualmente são publicados milhares de artigos científicos de ciências da natureza no Brasil. Tais estudos, porém, ainda são de difícil acesso para o público em geral, não apenas pela linguagem técnica, mas também porque muitos exigem pagamento de assinatura e a baixa divulgação. Com esse enfoque, nasce um esforço internacional das Nações Unidas e de diversos atores na “Década das Nações Unidas de Ciência Oceânica para o Desenvolvimento Sustentável (2021-2031)”. Uma das metas da “Década do Oceano” é justamente promover a “Alfabetização Oceânica”, ou seja, aproximar ainda mais a população desse incrível mundo azul e salgado. É necessário, assim, um esforço coletivo que envolva cientistas, sociedade civil e instituições variadas para comunicar a importância socioambiental da sustentabilidade do oceano.

Assim como o montanhista Muir lá no início do século 20, a Rede Ressoa Oceano também tem como objetivo difundir conhecimento científico de qualidade de forma gratuita e de fácil acesso; informando, encantando e sensibilizando seus leitores em prol do ambiente marinho. Iniciada em 2023, a Rede une esforços e pontos de vista de diferentes grupos ligados ao Oceano, como cientistas, jornalistas, gestores públicos e comunidades tradicionais. Criando um espaço que incentiva a construção de parcerias entre diferentes iniciativas de comunicação e divulgação sobre os diversos saberes ligados ao oceano, a Rede conta com o financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e nasce da colaboração entre o Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp); a Cátedra Unesco para a Sustentabilidade do Oceano, da Universidade de São Paulo (USP); a Ilha do Conhecimento e a Liga das Mulheres para o Oceano. Ressoando ainda mais com novas parcerias como a Agência Bori e o Bate-Papo com Netuno.

Que cada vez mais consigamos ressoar pelo (e para) o nosso oceano! Nos aproximando mais do gigante azul, preservando sua imensa diversidade de seres e, por consequência, de tantos serviços que beneficiam a nós, humanos. Que “Conhecer para conservar e Conservar para conhecer” consiga sair cada vez mais do papel.

Referências

OECO. O que é o SNUC. Oeco, 2014. Disponível em: https://www.lingyidy.com/dicionario-ambiental/28223-o-que-e-o-snuc/

MAGRIS, R.A. et al. A blueprint for securing Brazil’s marine biodiversity and supporting the achievement of global conservation goals. 2020.

FÉLIX, A.C.T., FONTGALLAND, I.L. Protected areas in Brazil and in the world: general picture of its implementation. v. 10, n. 12, 2021.

MARINHA. Amazônia Azul. Marinha, s.n. Disponível em:

https://www.hn-plastic.com

BORI, Agência. Produção de ciência no BR caiu pela 1ª vez em 2022; queda em número de artigos foi observada em 23 países. Abori, 2023. Disponível em:

https://www.hdxgyy.com

MMA. Convenção sobre diversidade biológica. Gov, 2023. Disponível em: 

https://www.hdxgyy.com

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Comentários1

  1. Vitordiz:

    Excelente!!
    “Somos cercados pelo imenso Oceano, mas quase não o conhecemos e, principalmente, pouco protegemos” nada mais verdadeiro!